A Vingança dos Nerds

Um dia desses tive a infelicidade de ouvir a seguinte frase: “Você quer então que eu comece a me interessar por nerds?”

O contexto era o seguinte: cansada de ser rejeitada por mais um espécime do sexo masculino pertencente ao subtipo aqui classificado de “macho alfa” (leia-se: cabeça de vento com músculos e folga em excesso), a moça em questão, ela mesmo pertencente ao subtipo caracterizado pela inteligência reduzida e em proporção inversa à quantidade de silicone contida em suas glândulas mamárias, ironizava o que ela achava ser a alternativa para a perene decepção amorosa na qual ela se encontra. Em poucas palavras, para “libertar-se” desse vício de homens esteticamente bem aceitos socialmente mas cujo caráter questionável a deixava literalmente na mão, a alternativa seria justamente se contentar com algo bem menos atraente em todos os aspectos. Resumindo mais ainda, a idéia que permanece é a inferioridade inerente do nerd em todos os aspectos (menos, quem sabe, no acadêmico).

Tal conclusão pode ser um pouco amarga, mas não é preciso chegar a tanto. Nós sabemos que essa idéia não corresponde à realidade. Embora os interesses em comum que englobam o estilo de vida nerds sejam considerados desinteressantes, nós sabemos o quanto compartilhamos com as pessoas que se consideram fora desse circulo restrito e estereotipado do nerd. Um exemplo bom disso é a surpreendente quantidade de grupos de moças na estréia do filme do “Homem de Ferro”. Arrisco dizer que nenhuma delas chegou perto das HQs que deram origem ao filme e que seria uma gafe terrível comentar como o Robert Downey Jr. é o Tony Stark que acompanhamos pelos quadrinhos. De qualquer maneira, todo mundo sabe que é arriscado puxar papo com alguém do sexo oposto falando sobre quadrinhos mesmo se você se encontrar em uma convenção de animê, ela vestida de Elektra e você de Demolidor. Seria mais fácil e menos arriscado fingir ser cego de verdade.

Esta preferência pelo subtipo macho alfa muitas vezes chega a ser revoltante. Mas, convenhamos, os nerds do sexo masculino também apreciam mulheres que representam o ideal de beleza. A revolta, essa sim justificada, aparece na medida em que somos vistos como seres sem nenhum apelo estético qualquer. É como se não fôssemos hábeis de sairmos desse nosso glorioso mundo de HQs, RPGs etc. e sermos as pessoas sociáveis, interessantes e, de fato, agradáveis aos olhos. A revolta aparece também quando não somos reconhecidos como nerds justamente por estarmos em ambientes sociais e vestidos apropriadamente (leia-se, sem nossas camisetas estilizadas).

Via de regra, muitos chegam até a se surpreender com nossas habilidades em relação ao sexo oposto. No filme “A Vingança dos Nerds”, por exemplo, o personagem Stan (o principal, que usa óculos e porta-canetas no bolso) rouba a fantasia de Darth Vader de um dos membros da outra fraternidade (líder da fraternidade Alfa Beta) e transa com a sua namorada. No final das contas, ela acaba muito satisfeita com as proezas do nosso herói e não liga para o fato dele ser um nerd. Ela fica mesmo é bastante satisfeita.

Fica claro o exemplo a ser retirado desse filme clássico e não devemos nos esquecer disso, mesmo frente a comentários parecidos ao supra-citado. Cada vez mais obras de HQs estão sendo adaptadas às telonas com crescente qualidade e apelo diante do público, mesmo que conversas sobre HQs ainda ocupem um nicho bastante desconfortável pois a equação de HQs e crianças ainda persista no imaginário social. É preciso discernir entre o estereótipo desconfortável e a realidade que conhecemos. Não existe nenhum nerd que nunca tenha deixado de ouvir a palavra “nerd” de maneira pejorativa. Ela é utilizada para tudo: desmerecer aquele que por algum motivo ou outro apresenta um rendimento acadêmico acima da média; denominar aquele que acha divertido jogar RPG com os amigos em um final de semana qualquer; o solitário que entende referências culturais obscuras em filmes, séries e outras formas de entretenimento; e, principalmente, a pessoa que tem personalidade o suficiente de ser abertamente interessado em coisas que muitas vezes escapam o universo do mainstream. Se realmente for verdade que somos um subtipo inferior, nada posso fazer a não ser admitir essa inferioridade imposta a mim e àqueles iguais a mim com orgulho. De qualquer maneira, todo bom nerd sabe que esse negócio de imposições sociais são uma grande besteira e que, portanto, não faz nenhuma diferença admitir coisa nenhuma.

Mas o estereótipo do nerd desinteressante vem ruindo paulatinamente. Ninguém pode negar que uma pessoa como a Megan Fox, nerd assumida, seja desinteressante. Mesmo se ela estivesse vestida de Gimli (com barba) e falando apenas no infame dialeto Klingon deixaria de ser uma pessoa atraente. Mesmo se ela estivesse em uma das baladas mais concorridas de qualquer metrópole. Mesmo se ela estivesse de óculos e falando mal do George Lucas por ter colocado o Hayden Christensen no final de “O Retorno do Jedi”. E nem é tão difícil achar um exemplar masculino que transcenda e acabe com esse preconceito. O Vin Diesel, cujo sucesso e apelo para com o sexo oposto é inegável, não só tem tatuado “Melkor” no braço mas como escreveu o prefácio da edição comemoriativa de 30 anos de Dungeons & Dragons. Até a moça do comentário iria babar por ele.

Por isso, não devemos nem nos preocupar com comentários ignorantes. Se os exemplos citados não são suficientes, basta lembrar daquela foto da equipe da Microsoft na época em que foi fundada com legendas que variam entre “eles são seus chefes hoje em dia” até “esses homens (e mulher) estão entre os mais ricos do mundo” para entender que não se trata de interesses e atividades, mas da nossa própria competência e multiplicidade que muitos esquecem que temos. E tenho dito.

~ por etnelaverdna em Julho 25, 2008.

3 Respostas to “A Vingança dos Nerds”

  1. Na verdade, eu acho que o que aconteceu foi que NERD deixou de ser algo tão ruim para a imagem de alguém. Muita gente que era NERD mas escondia isto, seja para não ficar taxado como alguém desinteressante ou seja por próprio preconceito mesmo, deixou de ter vergonha de sua condição. E isto só serviu para diminuir a imagem do nerd-de-óculos-fundo-de-garrafa-e-camisa-polo e tornar os nerds em uma tribo urbana como outra qualquer, com seus próprios costumes e “habitat”.
    E a imagem do NERD melhorou tanto que existe gente que se finge de nerd pra tentar melhorar a sua própria imagem. :)

  2. Eu tenho orgulho de ser um nerd. E minha namorada quer morrer pelo fato de eu ser um nerd. Mas o sexo é muito bom pra ela me largar.

  3. hahahaha

    Gente eu AMO nerd.
    :***

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